Dentro do panorama musical do Brasil, ARRIGO BARNABÉ é considerado um artista extrordinário. Nasceu no sul do país em 1951 e cresceu em S. Paulo. É este equilíbrio que o traz de volta a uma maior normalidade.

Ao contrário do Rio de Janeiro, da Baia, da região do nordeste, do Rio Grande do Sul que viram nascer géneros musicais próprios, quer seja ao nível do folclore ou da música popular, S. Paulo não possui qualquer género musical específico. Assim, a grande metrópole brasileira tem de tudo. Em S. Paulo, verdadeiro boião de cultura, a música questiona-se, reposiciona-se, reinventa-se.

Compositor que lida com música dodecafônica, atonal, que “cozinha” na mesma panela música erudita, popular, jazz, rock, que faz tocar um coro de orquestra sinfónica, um grupo pop, uma banda de hard rock, um quarteto de cordas, Arrigo Barnabé, não é mais do que um autêntico paulista. E é, igualmente um dos leaders da “Vanguarda Paulista”, movimento cultural cuja modernidade e o caráter experimental estão implícitos no seu nome. Nascido no ínicio dos anos 80, este vanguardismo está no topo do Tropicalismo. Arrigo Barnabé e os seus cúmplices Itamar Assunção, as cantoras Eliete Negreiros, Tetê Espinola, Vania Bastos, os grupos rock Premiditando o Breque, Lingua de Trapo etc. apropriam-se dele, atualizando-o e imprimindo-lhe o seu sotaque paulista, numa aproximação à inovadora proposta dos fins dos anos 60 por Caetano Veloso, Gilberto Gil, e, no plano da pesquisa formal, por Tom Zé.

Com dupla formação universitária em Arquitetura e Música, guardou um gosto pela imagem, à qual a sua música está inabalavelmente associada. Música para a imagem, como aquela que ele não cessa de compor há mais de 30 anos para o cinema. Mas, igualmente música com imagens, como aquelas feitas em formato  “ópera BD”.

Escrito para orquestra sinfónica e grupo rock, Clara Crocodilo, primeiro álbum que saiu em 1980, dá o mote do tom. Com a sua métrica anunciadora dum rap que em breve irá eclodir no Brasil, a obra trouxe o décor duma música decididamente urbana, na fronteira do saber erudito e do popular, com o seu repertório feito de histórias de vida em desespero das favelas da cidade, marginais e “bad boys”.

Outros álbuns seguiram-se; com estes, os concertos e as tournées. Em 2008, Arrigo é convidado a apresentar-se no Chile com o repertório de Clara Crocodilo, álbum reeditado em 1999. Acreditem que não foi bem essa a minha vontade, mas foi o que me pediram para o concerto chileno. Já que era necessário executar um repertório antigo, Arrigo renovou os participantes: aos velhos amigos de sempre, o produtor musical Paulo Braga ao piano e Mário Manga na guitarra, juntaram-se quatro Lolitas recém-saídas da adolescência e da universidade onde seguiram uma formação musical rigorosa: Ana Karina no baixo, Maria Berardo Bastos no clarinete, Joana Queiroz no sax tenor, Maria Portugal na bateria e todas as quatro na voz. Elas trouxeram uma energia nova que me agradou imenso. Devido ao sucesso alcançado no Chile, Arrigo decidiu apresentar o espetáculo em S. Paulo, novamente com sucesso, evidentemente, para um público restrito, culto e inteligente. As pessoas vinham ao espetáculo e diziam: Que loucura! Estamos habituados a ver a tua música a ser interpretada por pessoas mais velhas e aqui vemos estes jovens que tocam instrumentos super complicados, com uma técnica e um som dos diabos e mais ainda, eles parecem estar a se divertir, que impressionante!

Surge a ideia de fazer um DVD. É então que Isabel Ribeiro cria Défis e propõe a Arrigo lançar um dos seus álbuns. Ao último que acabara de terminar com outros músicos, Arrigo prefere aquele que ainda não tinha gravado com a nova versão de Clara Crocodilo. Ele reúne toda a banda num estúdio em S. Paulo e em quatro dias o álbum estava pronto. Quatro dias é pouco, tudo é feito rapidamente sob pressão. A atmosfera era tensa, nervosa, com muita gritaria e tudo isto se sente no álbum…mas é bom.

 É mais do que bom, é excelente.

Estes reencontros com a sinfonia do caos e a narração, sobre um modo de rock de tendência opera jazz livre, levaria a temer que esta obra singular não tivesse um percurso feliz. Mas com os arranjos totalmente reescritos, uma nova sonoridade mais agressiva, mais louca e o som do conjunto dado pelo groove das jovens, Clara Crocodilo, oferece-nos uma verdadeira reforma. Quando terminamos de gravar e ouvimos o resultado, as jovens disseram-me que eram as ”três Ramones” (mesmo que nada nos impeça de pensar também um pouco no Prince de “Purple Rain”). Além disso, Arrigo valorizou a parte instrumental e minimizou a importância das vozes – num CD destinado a ser posto à venda no estrangeiro não serve de nada privilegiar as vozes numa língua que o público não compreende…

E, como última alteração, o titúlo do CD…no plural: ClaraS e CrocodiloS, assim de repente, como num piscar de olhos. Em vez de colocar o ênfase na música pusemos nos músicos que a interpretam: quatro jovens Claras e três velhos Crocodilos. Um choque de geração saudável.

 

Dominique Dreyfus

 


  

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